Surda e com traços de autismo, Carla comunica através de seus desenhos

O mundo de Carla


Jornal Expresso - 06/12/2004
Comentário SACI: Jornal Expresso / 27 Nov.04 – Portugal
Algumas expressões usadas no texto, como "surda-muda", são consideradas incorrectas e sugerimos evitá-las.
Ana Cristina Câmara
 
Surda e com traços de autismo
 
Paredes feitas de silêncio é como se pode definir a "clausura" de Carla Sofia, 27 anos passados em autismo e na surdez-mudez. Deram-na como perdida para a vida, aconselharam a mãe a interná-la num hospício. Carla refugiou-se na pintura, é de lá que fala para o mundo, e já recebeu prémios.
 
Pega nos lápis de cores e começa pelos tons mais escuros a preencher o branco da folha. A Carla Sofia escolhe invariavelmente os azuis e os cinzentos, que vai aligeirando num "dégradé" também previsível. Ou faz os desenhos que lhe pedem, meticulosa, atenta a perspectivas e proporções, ou cria a sua própria composição ao interpretar uma imagem colocada à sua frente. Quando lhe apetece, dedica-se a abstractos, sempre quieta, aplicada. Vive num mundo só dela, à prova de som.
 
Surda-muda com comportamentos autistas, são poucos os laços que a prendem ao mundo real: a família, principalmente a mãe, que, incansável, nunca desistiu dela, e a pintura, meio de expressão que a serena. Quase a completar 28 anos, a Carla Sofia frequenta uma instituição, com outros deficientes mentais. Ela, que já foi considerada um caso perdido, ilustrou um livro infantil, Histórias do Cavalo Azul, e está agora a ser auxiliada por uma professora para, através da pintura, ser mais autónoma e aprender a comunicar.
 
Ainda que lhe reconheçam a capacidade, o valor e a inteligência, a Carla muito dificilmente sairá do mundo em que o silêncio não se quebra e onde, sozinha, vive imagens, sentimentos, sensações. Na área de pintura do Centro de Actividades Ocupacionais (CAO) da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão com Deficiência Mental (APPACDM) de Coimbra, ela não liga às pessoas que entraram. Encosta o lápis ao indicador direito, apertado pelo polegar, e continua, imparável, a colorir. Tem pequenas feridas nas mãos, e as mangas cobrem os pensos dos braços. As crises recomeçaram, há cerca de um mês. Incapaz de comunicar o que lhe vai na alma, Carla agride-se. Agora está calma. De vez em quando, de cara colada ao desenho, levanta o sobrolho e espreita. Nada parece perturbar a jovem que já ganhou alguns prémios em concursos de Arte Especial e Arte Infanto-Juvenil.
 
Na parede da sala estão pendurados os seus quadros, mas não é possível perguntar à Carla se ela se orgulha deles. O que ela transmite, essencialmente, são necessidades básicas. Comunica gestualmente, e de forma limitada, porque aprendeu tarde. Os diagnósticos também foram tardios. Aos oito anos os médicos disseram à mãe, Conceição Batista, que a menina era surda-muda, depois de lhe terem dito, aos cinco, que era autista.
 
Pequena, a Carla foi para um jardim de infância onde a mãe também trabalhava. "E foi lá que aprendeu a agredir", explica Conceição Batista. A Carla foi a primeira criança com deficiência a entrar naquele infantário da Marinha Grande e, acusa a mãe, foi imediatamente rejeitada pelas educadoras. "Diziam que não tinham estudado para tratar de crianças como a Carla". Resultado: os outros meninos agrediam-na e vice-versa, sem haver uma intervenção dos adultos. "O deficiente mental é o mais difícil de integrar", sentencia Maria Prazeres Quintas, professora reformada do Ensino Básico, co-autora de Histórias do Cavalo Azul, e mãe de um jovem autista que frequenta o mesmo CAO que Carla Sofia.

Mais lado humano
 
Aos oito anos, quando lhe detectaram a surdez total, a Carla foi para o Instituto de Surdos da Fundação Bissaya-Barreto. "Inicialmente, ela estava muito bem. Fez progressos. Mas depois passou a ter vários professores, cada um fazia à sua maneira e desinteressaram-se dela", lembra Conceição Batista. É uma mulher cansada. Com um ar sofrido. Foi mãe aos 18 anos e esperou mais 16 para ter o segundo filho. Mas não desiste.
 
A Carla acabou por ser expulsa do Instituto com 16 anos. "Ela só apanhava lixo. E fugia, agredia, agredia-se. Saiu desestabilizada. Não desenhava, só riscava".
 
Estava perdida para a vida, a mãe chegou a ouvir quem lhe dissesse que o lugar da filha era num hospício. Mas foi para a APPACDM, que ainda não era este edifício térreo, amplo, sem barreiras arquitectónicas, para onde os utentes se mudaram há dois anos e meio. As melhoras na Carla foram imediatas, assegura a mãe. Já podia levar a filha à rua, deixou de se agredir e de agredir os outros. Conceição Batista não esquece que a instituição lhe salvou a filha - e a família, que recuperou algum equilíbrio.
 
A Carla faz parte de um grupo de cerca de 110 utentes do CAO de Coimbra, com vários tipos e graus de deficiência mental. A média de idades oscila entre os 30 e os 40 anos, mais homens do que mulheres, que não tiveram saída para a formação profissional. Estão aqui para serem ocupados de forma terapêutica.
 
Os ateliers ou áreas de referência, onde passam algumas das nove horas que estão no Centro, servem esse propósito. Nas salas de olaria, arraiolos, madeiras, tapeçarias, lida diária, música, pintura, aprendem ofícios, distraem-se, produzem. A instituição tem protocolos com empresas, e alguns destes jovens - como lhes chamam as psicólogas - montam caixas, como numa linha de montagem, consoante "as capacidades de cada um", explica a psicóloga Rosa Crisóstomo. Recebem depois uma "gratificação simbólica".
 
Um grupo de 13 utentes, mais autónomos, tem mobilidade para trabalhar no exterior do edifício, nos jardins. São também eles que tomam conta do café do Centro. Outros ainda têm uma deficiência profunda, são "jovens mais dependentes", diz Rosa Crisóstomo, "e o trabalho com eles assenta em terapias que promovam o bem-estar físico", complementadas por uma banheira de hidromassagem, um tanque de hidroterapia, o ginásio, a sala de fisioterapia e a sala Snoezelen - um método de interacção com os utentes que passa pelos cinco sentidos, pelo relaxamento.
 
O equipamento está lá, mas os pais dos utentes sentem necessidade de mais. Mais lado humano. Os professores destacados saíram porque se considera a aprendizagem terminada aos 16 anos. "As pessoas não perdem a capacidade de aprender aos 16 anos!"
 
Estas crianças têm sempre capacidade de aprender...", indigna-se Maria Prazeres Quintas, mãe do Tiago, um dos utentes do CAO. O Tiago, que nasceu prematuro e quase sem hipóteses de sobreviver, agarrou-se ao "quase" durante os últimos 27 anos. E às mãos, tem uma paixão pelas mãos das pessoas, gosta de as sentir, de as tocar. "Teve um desenvolvimento fantástico com o terapeuta ocupacional, no ano passado, um espanhol que já se foi embora. O meu filho tem uma idade cognitiva de nove meses, mas comportamentos e aprendizagens ao nível dos dois anos. Já é capaz de estar um tempo em frente à televisão e rir-se, estar atento às figuras dos livros", defende a mãe.
 
Os pais queriam, no mínimo, dois professores ou monitores ou auxiliares por sala. Porque os deficientes são problemáticos e imprevisíveis. No exterior do edifício, por exemplo, houve um desacato entre dois homens. Um pegou numa cadeira e ia atirá-la ao outro, não fosse a intervenção de familiares de utentes que, por acaso, estavam ali. A questão dos pais é: e se fosse numa sala de aula de onde o professor se ausentou, mesmo que por cinco minutos? Cláudia Gonçalves, psicóloga do CAO, responde: "Temos os profissionais que são necessários. Quando há uma falta há um plano de recurso que é posto em prática".
 
Agradecida mas inconformada, Conceição Batista quer mais para a filha. Contactou Manuela Gonçalves, professora que se formou em pintura nas Belas Artes do Porto, e pediu-lhe que trabalhasse com a Carla. Desde Fevereiro, Manuela procura ajudá-la, quer que conheça técnicas de pintar. Mas o objectivo último é torná-la autónoma. E desviá-la ao máximo dos comportamentos obsessivos típicos do autismo.
 
Porque quando a Carla chega a casa desata a limpar, a arrumar, nada pode estar fora do sítio, apanha a roupa da corda mesmo que ainda esteja húmida... "Ela é muito inteligente e quer intervir. Procuro que ela desenvolva uma linguagem escrita", explica Manuela. As duas entendem-se, há empatia. A professora quer que a Carla faça mais do que assinar o seu nome, com a letra redonda, perfeitinha: vai começar por desenhar frutos, com o nome por baixo, para que a jovem faça a associação entre desenho e palavra. Para ajudar a estabelecer a comunicação entre o mundo da Carla e o mundo real.


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